Haze Shift

Indicadores de impacto social: como revisar seu programa

Toda família que mora há muitos anos na mesma casa conhece este momento.

A casa acompanhou cada fase: os primeiros passos das crianças, as festas de fim de ano, os amigos que chegaram e foram ficando. Um dia alguém sugere uma reforma, e a primeira reação é de cuidado:

“E tudo o que a gente viveu aqui?”

Quem lidera um programa social com anos de trajetória costuma sentir algo muito parecido quando surge a ideia de ressignificá-lo. O programa cresceu, ganhou parceiros e construiu vínculos com as pessoas e com o território. Rever o propósito parece colocar tudo isso em risco, ou sugerir que algo deu errado no caminho.

Ressignificar não é recomeçar. É fazer a casa caber em quem mora nela hoje.

Vamos percorrer esse caminho em cinco momentos, do receio inicial ao programa renovado. Antes, vale combinar o que a palavra quer dizer.

O que significa ressignificar um programa 

Ressignificar um programa é revisitar o sentido dele à luz do momento atual: que mudança ele quer ajudar a construir, para quem e por que aquela organização é a mais indicada para fazer isso. A identidade, os vínculos e o que já foi aprendido continuam no centro.

A palavra costuma ser confundida com outros dois movimentos. Lado a lado, a diferença fica clara:

Ressignificar ReformularEncerrar
O que mudaO porquê: propósito, público e contribuiçãoO como: o desenho das açõesO ciclo chega ao fim
O que permaneceIdentidade, vínculos e aprendizadosEm geral, o propósitoO legado e os aprendizados
Quando faz sentidoQuando o programa cresceu e o contexto mudouQuando as ações pedem um novo formatoQuando o objetivo foi alcançado ou mudou de prioridade

Em outras palavras, ressignificar mexe no porquê sem precisar desmontar o como. Às vezes uma reformulação vem depois, como consequência natural. Às vezes, nem é necessária.

1. O receio de mexer no que deu certo

Comecemos pelo receio, porque ele merece respeito. Quando o assunto aparece em uma reunião, ele costuma chegar em frases assim:

“Vão achar que alguma coisa deu errado.”

“Os parceiros vão se sentir avaliados.”

“A comunidade pode estranhar.”

Todas fazem sentido, e todas têm a mesma raiz: o cuidado com o que foi construído. Esse cuidado é justamente o melhor ponto de partida.

Há também um dado que ajuda a mudar o tom da conversa. A vontade de rever um programa raramente nasce de um problema. Quase sempre nasce do crescimento, e o investimento social no Brasil está crescendo:

Mais recursos e mais parceiros significam mais gente olhando para o programa, cada uma com a sua expectativa. Com o tempo, cada uma também passa a contá-lo do seu jeito.

Nenhum desses sinais é um defeito. São marcas de um programa que se expandiu e que agora pede uma nova conversa sobre quem ele é.Ela reforça a diferença entre uma ideia promissora e uma inovação implementada. O piloto não precisa provar toda a jornada de valor em poucas semanas. Ele precisa produzir um sinal honesto para orientar o próximo passo, sem vender uma certeza que o teste ainda não construiu.

2. O que fica: o alicerce e as fotos na parede

Em uma boa reforma, ninguém mexe no alicerce. As fotos voltam para a parede, e a mesa onde a família se reúne continua no lugar de sempre.

Em um programa social, o alicerce é o que levou anos para ser construído e que nenhum orçamento compra de uma hora para outra. Muitas vezes, ele tem rosto:

A professora que indica jovens para o programa há tantos anos que já faz isso sem precisar de convite.
A liderança comunitária que abre a porta da associação para cada nova turma.
A pessoa da equipe que sabe o nome das famílias e a história de cada uma.

Nada disso aparece em um organograma, e tudo isso sustenta o programa. A confiança das pessoas atendidas, os vínculos no território, o conhecimento acumulado e a reputação que abre portas formam o patrimônio que uma boa ressignificação protege.

Ressignificar começa por dar nome ao que não está em jogo. Quando isso é dito em voz alta, o receio diminui e a conversa deixa de ser sobre o que pode se perder para ser sobre o que pode ficar ainda melhor.

3. O que se revê: para quem e para quê o programa existe hoje

Com o alicerce garantido, dá para olhar a planta da casa. A família mudou, os filhos cresceram, chegou gente nova. Alguns cômodos ganham outra função.

No programa, a planta é o propósito e os objetivos. O território mudou, a estratégia da empresa evoluiu, os parceiros trouxeram novas competências, e quem acompanha o investimento social passou a esperar outras coisas. A conversa costuma girar em torno de três perguntas:

  1. A mudança. O que estará diferente na vida das pessoas se o programa cumprir o seu papel?
  2. O público. Para quem essa mudança mais importa hoje?
  3. A contribuição. O que esta organização, com a sua história e os seus parceiros, oferece que ninguém mais ofereceria do mesmo jeito?

As respostas raramente são totalmente novas. Muitas vezes já estavam no programa e só precisavam ser ditas com as palavras de agora.

Um exemplo conhecido. Em 2015, a Fundação Ford, criada em 1936, anunciou que o combate à desigualdade passaria a ocupar o centro da sua atuação e decidiu praticamente dobrar o apoio institucional livre às organizações que apoia, chegando a 40% do seu orçamento de doações. Continuou sendo a mesma fundação, com a mesma história, e escolheu com mais clareza onde concentrar a energia.

4. O que nasce: indicadores estratégicos que todo mundo entende

Muitas famílias têm um batente de porta com risquinhos a lápis, cada um com um nome e uma data. Ninguém precisa de legenda para entender aquelas marcas. Todo mundo sabe o que está sendo medido e por que aquilo importa.

É esse o papel dos indicadores estratégicos em um programa ressignificado. Eles são os poucos números que mostram se o programa está cumprindo o propósito renovado. Com o propósito claro, a pergunta deixa de ser “o que conseguimos contar?” e passa a ser “que sinal mostra que estamos chegando lá?”.

Isso não diminui os números que o programa já acompanha. Eles continuam importantes, só que cumprem outra função:

Indicadores operacionaisIndicadores estratégicos
O que mostramO esforço: o que o programa fazA mudança: o que fica diferente para quem participa
ExemplosEncontros realizados, pessoas atendidas, horas de formaçãoPrimeiro emprego conquistado, permanência na escola, novos hábitos de saúde
Quem mais usaA equipe e os parceiros, no dia a diaLideranças, conselhos e quem financia o programa
Pergunta que respondemEstamos fazendo o que combinamos?Estamos chegando aonde queremos?

Essa ordem faz diferença. Quando a escolha dos números vem antes do propósito, é comum o programa acabar medindo o que é fácil de contar, e não o que realmente importa. Quando os indicadores estratégicos nascem do propósito, a dúvida sobre o que medir se resolve no caminho.

E a procura por clareza só aumenta. Oito em cada dez organizações do Censo GIFE dizem avaliar suas iniciativas, e a Resolução CVM 244 passou a pedir que, a partir de 2027, a companhia aberta que não publicar o relatório de sustentabilidade no padrão ISSB explique a decisão ao mercado.

5. A casa renovada

Depois da reforma, a família volta para casa. As fotos estão na parede, os risquinhos continuam no batente, e agora cada pessoa tem o seu lugar.

Com o programa acontece algo parecido. O nome, as pessoas e os vínculos seguem lá. O que muda é que todos voltam a contar a mesma história sobre por que o programa existe, e os números passam a mostrar o caminho dessa história.

Para levar à próxima reunião:

Ressignificar não apaga a história de um programa. Dá a ela um próximo capítulo, escrito com as palavras de hoje e acompanhado por indicadores de impacto social que todo mundo entende.

Na Haze Shift, acompanhamos organizações nesse tipo de revisão, com cuidado por tudo o que já foi construído. Se o seu programa está vivendo esse momento, vamos conversar.

Sair da versão mobile