Quando pensamos em fontes de energia renováveis, é natural imaginarmos placas solares e usinas eólicas. Mas existem outras fontes limpas e sustentáveis, e que podem gerar receita ou créditos a empresas do agronegócio junto às concessionárias de energia. Isso faz parte do conceito de agroenergia no Brasil: um mercado altamente inovador.  

Ano a ano esse mercado evolui e reforça a posição brasileira como referência global no tema. Segundo o Balanço Energético Nacional 2020, elaborado pela estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2019, o consumo de etanol a partir da biomassa de cana-de-açúcar registrou crescimento de 11,1%. Já a produção de biodiesel cresceu 9,3%.

Graças ao aumento dessa oferta, a matriz energética brasileira ultrapassou 46% na participação de energias renováveis, contra aproximadamente 14% no mundo. É impressionante, concorda? Para mim, isso mostra o potencial brasileiro de, cada vez mais, estar alinhado ao conceito de economia circular, onde os recursos são utilizados até o fim ou reaproveitados para um novo ciclo produtivo. Isso evita o descarte. Agora que você já conhece a importância de utilizar essa matriz, confira alguns dados do total de produção de energia do Brasil:

  • 18% vem da biomassa de cana;
  • 12,4% de fontes hidráulicas;
  • 8,7% de lenha e carvão vegetal;
  • 7% de outras fontes renováveis, como eólicas, biodiesel, solar e biodigestores e biomassas (como casca de arroz e óleos vegetais).

Vamos ver como esses números favorecem a inovação na agroenergia?

Mercado Livre de Energia e inovação na agroenergia no Brasil

Antes de entrar no tópico da inovação, vale um parêntese para resumir como funciona o Mercado Livre de Energia, também chamado de Ambiente de Contratação Livre (ACL). Aqui, empresas com potencial de gerar energia própria, podem fazer contratos bilaterais com distribuidoras de energia. Dessa forma, invés de apenas consumir energia, elas podem vender essa produção ou ainda obter créditos quando conseguem enviar mais energia à rede elétrica em relação ao que é consumido. A exemplo disso, você pode observar neste link como o Grupo Salmeron Agroflorestal faz com o cavaco de madeira em São Paulo. Entenda mais sobre o mercado livre neste link.

Como consultor de inovação aberta, eu vejo esse modelo como uma excelente oportunidade para empresas e indústrias do agro, para cooperativas e até mesmo para produtores rurais. 

Essa produção energética praticamente sempre ocorre com inovação aberta por parcerias entre governos (o que pode incluir benefícios fiscais), estatais e outras empresas, startups, universidades e polos de inovação. Essa prática funciona como inovação colaborativa, uma das 33 rotas da Inovação Aberta citada nesse artigo do meu colega de trabalho Marcos Daniel Goes

E o potencial é enorme. Para se ter uma ideia, as indústrias (grandes consumidoras de energia e de matéria orgânica) são o segundo maior usuário de energia do Brasil (30,4%), atrás apenas do setor de transportes (32,7%). Já imaginou frigoríficos, com seu alto consumo de energia, terem 100% do seu próprio abastecimento energético proveniente de uma matriz limpa, com uma integração de biodigestores capazes de produzir energia para indústrias a partir das próprias fazendas, por exemplo? A cada dia que passa, esse sonho fica mais perto de se tornar realidade.

Exemplos de agroenergia no Brasil: vantagens e opções diversas

Nesse sentido, eu destacaria alguns setores em especial, com alto potencial de inovação aberta. Confira alguns exemplos de agroenergia no Brasil:

  • A mais famosa, a biomassa gerada a partir do bagaço de cana, para queima e geração de energia, e calor às indústrias. O setor já possui uma produção forte e consolidada, mas com novas parcerias pode aprimorar ainda mais os processos.
  • A biomassa de cavaco de madeira é uma excelente alternativa à queima de óleos. Ela é capaz de dar uso total à madeira das produções de pinus e eucaliptos (que, vale lembrar, são de reflorestamento). Indústrias de celulose, por exemplo, podem ser beneficiadas encontrando os parceiros ideais para essa matriz energética. Aqui temos um bom exemplo: a Embrapa Florestas tem várias publicações que mostram o potencial de inovação aberta a partir da conexão entre a Embrapa, empresas do setor madeireiro e produtores de pinus e eucaliptos.
  •  O biodiesel produzido a partir de proteínas como esmagamento da soja tende a ultrapassar, até 2023, 15% como mistura no diesel comum – em 2021 está em 12%, por determinação da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Aproveitando a forte produção de soja brasileira, cooperativas buscam crescer nesse mercado. Um exemplo é a Cocamar, de Maringá, que prevê para 2021 uma usina própria de biodiesel: um exemplo de inovação feito junto aos próprios cooperados, como mostra esta reportagem.
  • Já o setor de proteína animal, outro grande consumidor de energia, pode ampliar cada vez mais o uso de biodigestores capazes de transformar matéria orgânica em energia, sendo uma excelente oportunidade tanto para cooperativas quanto produtores rurais.

Oportunidade para startups

Sobre esse último tópico, vale reforçar que biodigestores são equipamentos que geram gás metano a partir de grãos, resíduos como fezes de animais (sendo ótimos para garantir energia às granjas de suínos e aves) e até mesmo carcaças de animais que precisam de uma destinação correta. 

Isso pode ocorrer em casos de perda de criações de frangos – ao invés de enterrá-los e contaminar o solo e lençóis freáticos, a queima em biodigestores é ambientalmente responsável, além de gerar energia. Nesse sentido, startups têm alto potencial para levar soluções do gênero a diferentes públicos. A startup Hacka Bioprocessos, em parceria com a Embrapa Agroenergia, iniciou um processo capaz de produzir diesel a partir de resíduos ósseos de aves

Além de produtores rurais, cooperativas, indústrias do agro, startups também trabalham para transformar em energia a matéria orgânica descartada em comunidades distantes. Um exemplo é a startup Canteiro, que teve o projeto Sanitat financiado pelo Banco do Nordeste (BNB), a partir do Programa de Incubação do Nutec “Você, Empreendedor!”. Entenda:

Em 2020, a iniciativa buscou levar o biodigestor da startup a comunidades isoladas, com a proposta de gerar energia sem precisar estar conectado a redes de energia locais. De quebra, esse biodigestor ainda faz tratamento de esgoto; veja detalhes nesta notícia do governo do Ceará. Ou seja, uma amostra de que startups, governo e produtores podem juntos impulsionar a inovação aberta da agroenergia. Mas quais seriam os primeiros passos?

O primeiro passo para implementar o conceito de agroenergia: a inovação aberta

Eu, pessoalmente, admiro o trabalho do Parque Tecnológico de Itaipu (PTI), que nós da Haze Shift tivemos orgulho de fazer parceria em alguns projetos. O exemplo que vou dar é excelente para mostrar a conexão entre o conceito de agroenergia no Brasil e inovação aberta.  

Em 2020, o PTI e outros dois parques tecnológicos apoiadores da Iguassu Valley (organização de incentivo à inovação do Oeste do Paraná) – nesse caso o Biopark e a Fundetec – assinaram com o governo do Estado do Paraná um convênio para a criação de um novo DataLab, em que uma das prioridades é o Centro de Inteligência Artificial Aplicada à Agroenergia. Assim foi criado o ambiente perfeito para agroenergia e inovação aberta caminharem juntas.

O que isso nos mostra na prática? Que não basta mais às indústrias se preocuparem somente com obter material orgânico para usar em seus produtos finais, descartando resíduos. Afinal, isso seria mais do mesmo. Todos precisam pensar na sustentabilidade e na economia circular, e a agroenergia é também uma forma de investimento em linha com o tripé de Ambiental, Social e de Governança, que formam a chamada ESG.

Leia mais: Qual é a relação entre ESG e inovação e como acelerar a aderência a essas 3 letras

Portanto, se você ou sua organização está com dificuldades em saber por onde começar a fazer projetos do gênero, conectando agroenergia, sustentabilidade, economia circular, entre outros temas, é importante contar com uma consultoria especializada em inovação para, assim, identificar os parceiros certos para o seu caso. Nós da Haze Shift podemos ajudar nesse ponto, pois além de estarmos inseridos neste ecossistema, temos histórias de sucesso com empresas de diferentes setores, inclusive do agronegócio.  Para nós, aplicar o conceito agroenergia no Brasil é uma estratégia excelente, mas que demanda parceria, ou seja, exige inovação aberta. 

Escrito por:

Digital Transformation Leader & Co-Founder de Haze Shift | + posts

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