Quando empreendedores têm ideias inovadoras, e estão na fase de ideação de um novo negócio, eles têm alguns caminhos para desenvolver sua solução. Uma das opções é desenvolver a ideia com o apoio do Cietec – Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia de São Paulo, gestor da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de São Paulo USP/Ipen.

O Cietec é um polo nacional de startups e é considerado a maior incubadora do país, com um programa de incubação contínuo, e processo seletivo aberto durante todo o ano. Ao todo, 140 empresas se graduaram pelo programa do Cietec, que tem como missão o incentivo ao empreendedorismo e à inovação. As empresas incubadas têm apoio de técnicos e pesquisadores em diferentes áreas de base tecnológica e assessorias como Gestão de Negócios, Jurídica, Contabilidade, Marketing e Vendas.

Mas como funciona o processo de seleção e quando os empreendedores devem optar por incubadoras e não por hubs de inovação, como o Distrito, ou mesmo aceleradoras? Além disso, quando grandes e médias empresas podem contar com a colaboração de incubadoras para seus negócios?

Com a experiência de quem já contou com a parceria do Cietec em alguns projetos, nós da Haze Shift fomos atrás dessas respostas. Em entrevista, o coordenador de Projetos Especiais do Cietec, Oscar Nunes, destaca que o Centro está localizado junto à Universidade de São Paulo (USP), o que facilita a aproximação de startups e empresas com a Academia, o que é um diferencial para o país.

Oscar é uma das referências nacionais em inovação e está no Cietec há 18 anos. Ele realiza mentorias com startups e também é um dos responsáveis por analisar propostas para o processo seletivo. “Já passaram centenas de startups pela minha frente, a gente acaba adquirindo muita experiência até pela vivência prática. Nunca temos dois dias iguais”, afirma.

Formado em Administração e em Comunicação social, Oscar conhece vários lados da mesma moeda. Além de sua atuação junto com startups, ele conta: “Transitei 20 anos em multinacionais, como na Philips, em várias áreas, incluindo mentorias de negócios. Na área acadêmica fiz Gestão de Habitat de Inovação”.  Confira a entrevista:

Oscar Nunes, coordenador de Projetos Especiais do Cietec, incubadora de startups

Equipe Haze Shift – Oscar, vamos primeiro falar um pouco sobre o Cietec: como ele surgiu e quais são as atribuições?

Oscar Nunes – O Cietec foi criado em 1998. Naquela época, o assunto incubadoras era algo relativamente novo. A palavra startup sequer era utilizada, eram chamadas de empresas de base tecnológica. Houve a iniciativa e um acordo entre cinco entidades: o Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), a USP (Universidade de São Paulo), o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), o Sebrae-SP e o governo do Estado, então representado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Passados 23 anos, desses cinco fundadores, na atual configuração seguem dois: USP e Ipen. Na realidade, esses dois é que são os donos do negócio Incubadora. Para você entender, existe a Incubadora de São Paulo, em que os donos são o Ipen e a USP. Mas quem faz gestão de todo o sistema é o Cietec, só que isso se confunde com a incubadora, já que desde 1998 é o Cietec quem toca isso.

Apesar de a USP ser pública e nós estarmos dentro de um espaço público, o Cietec propriamente não é público. Nós somos a entidade contratada para fazer a gestão da Incubadora. Somos uma organização sem fins lucrativos, no sentido de que não temos um dono para distribuição de lucros. Então, como não fazemos distribuição de lucros, 100% dos resultados que conseguimos são investidos nos processos de incubação.

E de onde vem os resultados do Cietec?

Nosso acordo de gestão com USP e Ipen está firmado na ideia de que não recebemos recursos deles. Não existem aportes. Então, aqui ninguém é funcionário da USP ou Ipen: nós somos funcionários do Cietec. Nossos recursos vêm dos valores pagos pelas startups incubadas. É um negócio autossustentável baseado na receita que se obtém pelo serviço de incubação.

Nenhuma empresa está incubada de forma gratuita. Quando as startups entram, eles passam por um processo seletivo. A partir desse momento, elas assinam um termo de adesão à incubação do Cietec e pagam um valor mensal. Isso não significa que elas pagam um aluguel, mas sim um pacote do programa de incubação.

Conceitualmente, há uma série de serviços inclusos: instalação física, internet, limpeza, segurança, luz, telefonia, consultorias em área de mercado, propriedade intelectual, enfim, existe o direito a uma série de serviços. Funciona mais ou menos como o conceito de condomínio: quer você use tudo, quer use alguma coisa, use parcialmente ou não use nada, o valor será o mesmo. Imagine, por exemplo, a piscina de um prédio: se você utilizar todos os dias ou nenhum dia por mês, o boleto do condomínio vai ser igual. Com o Cietec, conceitualmente, é a mesma coisa: se a pessoa utilizar a estrutura de domingo a domingo, ou uma vez por semana, o valor do pacote de benefícios é o mesmo.

Grandes empresas também fazem uso dessa infraestrutura?

Existem vários formatos nesses contatos com empresas maiores. Por exemplo, a gente já teve empresas grandes que incubam projetos no Cietec. Para eles, muitas vezes é vantagem aproveitar o ambiente da academia para inserção nas escolas, para encontrar pesquisadores, doutores, etc.

Empresas grandes também parcerias com outras startups, então o ambiente do Cietec favorece isso. Muitas vezes, para essas empresas, é vantagem utilizar desse processo de incubação porque sai mais barato do que criar uma estrutura na empresa para depois desmontar, após uma demanda de projetos que têm três ou quatro anos de duração. Então, é melhor pegar estrutura semi-pronta dentro de uma incubadora, fazer a adaptação necessária e fazer parcerias. Esse é um formato.

Outro fato que as grandes empresas buscam são serviços e soluções mesmo. Por exemplo, a gente está abrindo para o mercado um novo programa de inovação aberta, que nós chamamos de Corporate Services para grandes empresas.

Nesse sentido, nós buscamos ampliar o leque de receitas, já que só o leque de valores mensais pagos por empresas incubadas estava começando a ficar apertado para nós. Isso até porque o mercado mudou muito, em comparação com o que era o Cietec até há alguns anos. Agora nós temos concorrentes como hubs de inovação e aceleradoras. Ou seja, o mercado diversificou muito e, claro, a gente tem que se adaptar e diversificar para atender a essa demanda das próprias empresas grandes para prestação de serviços.

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Fora isso, às vezes existe o contato com empresas grandes fechando negócios mesmo.  Recentemente, duas de nossas startups foram compradas por grupos grandes da área de saúde. Há um tempo, um grupo francês fez uma aquisição. Em outra oportunidade, foi uma grande farmacêutica. Então vemos que existem diversos formatos de aproximação das grandes empresas com o Cietec e as startups incubadas.

Vocês tiveram que mudar o modelo de negócios também por conta da pandemia?

Foi complicado para todo mundo porque a pandemia representou uma virada muito brusca. Não que não houvesse trabalho remoto ou online, mas não em uma demanda como aconteceu. Eu mesmo trabalhava um dia por semana em home office. De repente, isso mudou para 100%, e adaptação inicial não foi tão simples porque nem todas as ferramentas para se trabalhar online eram eficazes. Algumas tinham custos e outras alguns problemas. E o maior problema para nós, eu diria que não foi a forma de trabalho, foi o impacto direto nas startups.

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Em 2020, nós perdemos 40 startups por conta da pandemia. Normalmente, startups em fase desenvolvimento não têm fonte de receita. Elas vivem com recurso próprio, às vezes com algum investidor, ou porque conseguem fomento ou até mesmo pessoas que trabalham um período em outra empresa, são consultores ou ministram aulas, e trabalham nas startups em horários livres. Esses caras foram muito afetados porque, muitas vezes, a fonte de recursos que eles tinham para tocar a empresa acabou. Então teve startup que entregou a chave dizendo que tinha apenas um fornecedor e um cliente, e os dois quebraram.

Por outro lado, também foi curioso o número grande de startups que entraram no Cietec. Entraram 40 e saíram 40. Talvez isso se justifique pelo próprio mercado, de empreendedores que passaram a tocar a vida com um projeto próprio. Talvez isso tenha encorajado novos projetos. E, principalmente, pela possibilidade de o cara fazer tudo online, com poucos custos, pode ter incentivado o surgimento de novas startups. 

Agora, isso não significa que as coisas estão resolvidas, mas o mercado ficou um pouco mais estável. Neste momento sabemos quais são os problemas, quais são as limitações, quais são as áreas atrativas. O mercado continua sob pressão, porém, digamos que a leitura ficou mais fácil por entender exatamente o que está acontecendo.

O Cietec foi reconhecido como a maior incubadora da América Latina. Quantas startups passaram por aí e quantas estão incubadas dentro do Cietec atualmente?

Se fizermos uma história da evolução, quando o Cietec começou em 1998, eram poucas, algo como seis startups. Mas cresceu ao longo do tempo. Depois de dez ou 12 anos, chegou a 100 startups, o que levou o Cietec a ser em tamanho uma incubadora fora da curva.

Atualmente, o Brasil tem mais ou menos 400 incubadoras espalhadas pelos estados e cidades. Na média geral, cada incubadora tem entre dez e 14 startups. O Cietec com cem startups equivale a quase dez incubadoras. Do ponto de vista de tamanho, ele é fora da curva. Atualmente temos 95 startups incubadas, o que varia um pouco ao longo dos meses. Mas pelo que me consta, não existe nenhuma desse tamanho na América Latina. 

Se formos pensar, o que pode explicar isso? São Paulo é uma cidade de negócios muito ativa. Fora isso, todas as tecnologias estão aqui em São Paulo. Em terceiro lugar, estamos localizados na USP, ou seja, uma universidade com todas as tecnologias. A gente fica em espaço, ou em um “bairro” vamos dizer assim, em que você tem acesso a quase tudo que precisaria em termos de ferramentas e auxílios na área tecnológica. Esses fatores contribuíram bastante ao longo dos anos para segurar esse nível de startups ao longo do tempo, mesmo com pandemia.

E quem pode fazer uso do Cietec? Existe algum tipo de prioridade para startups formadas na USP ou o foco é naquelas que passam pelo processo seletivo?

Funciona assim: o Cietec não é uma incubadora universitária clássica, daquelas que priorizam ou mandatoriamente só abrigam projetos de uma universidade. Nós somos abertos ao mercado. Se pegar nosso portfólio, temos uns 35% vindos do ambiente acadêmico da USP (entre pesquisadores, alunos e professores). Os outros 65% vêm do mercado, sem relação com a USP. Pode ser uma empresa que existe no mercado, com um projeto da empresa específico.

Pode ser, por exemplo, um camarada curioso sobre um assunto, e também chegam a nós alguns casos como executivos aposentados que buscam empreender e colocar um projeto para incubação.

O portfólio é bem heterogêneo. O Cietec recebe projetos em várias fases. Alguns que tem que comprovar a validade, que entram na área pré-incubação. Tem projetos que recebe no meio do desenvolvimento. Também tem alguns que já estão com o MVP (Produto Mínimo Viável), que estão quase prontos para entrar no mercado. E alguns projetos que entram para funcionar aqui quase como uma aceleradora. Portanto, o próprio perfil do empreendedor é heterogêneo. São pessoas desde seus 22 anos, recém-formados, até seniores com 65, 70 anos. Nesse intervalo de idade, também chegam a nós desde empresários a pessoas que nunca empreenderam.

Agora, poderia desmistificar a diferença de um Hub de inovação para aceleradoras e incubadoras?

Isso é realmente confuso porque existem muitos ambientes que tratam de empreendedorismo e inovação. Eu lembro que, há 18 anos, era até engraçado quando eu falava que trabalhava em uma incubadora:  o cara pensava que eu trabalhava em uma granja ou em uma maternidade. Era o que vinha na cabeça das pessoas, e eu tinha que explicar o que era uma incubadora de empresas. Ao longo do tempo isso mudou e esses ambientes foram se diversificando com a chegada de aceleradoras e hubs.

Uma diferença clássica entre incubadora e aceleradora, é que a incubadora pega um projeto desde o seu início, desde a parte de ideação até aqueles que já estão mais desenvolvidos. Já a aceleradora prioritariamente aposta em quem está no mercado, ou seja, uma empresa que não vai originar novos negócios. Isso significa que a aceleradora vai pegar um produto ou serviço que já está no mercado e, em um prazo curto, entre três e seis meses, para injetar alguns recursos, submetendo a empresa a escalar suas vendas. Se o cara vende dez, eles querem colocar para vender cem. Já na incubadora, em média, o período de incubação varia entre três e quatro anos. São prazos e objetivos diferentes.

Já os hubs de inovação são um pouco de uma mistura de tudo. Pega desde empresas que estão no mercado e procurando novos negócios e investimentos a outras startups que estão na fase de ideação. Os valores e serviços são outros. Aqui em São Paulo, por exemplo, tem dois hubs grandes, o Inovabra (do Bradesco) e o Cubo (do Itaú). Hoje, para você colocar uma empresa nesses lugares, seja ela startup ou não, o custo vai chegar a mil reais por pessoa, por posição. Então, se chegasse com uma startup com quatro pessoas, basicamente, seria R$ 4 mil por mês. Para uma startup que está começando, isso é uma paulada, e ela não tem condições. Então esse ambiente atrai geralmente startups com mais recursos, com investidores, que pagam por isso.  Por isso, o conceito é diferente, assim como os valores envolvidos e a prestação de serviços.

Existem também outros hubs mais acessíveis, como o Distrito, não? Nesse sentido, quando uma empresa startup deve procurar um hub de inovação como esse e quando é mais adequado procurar o Cietec?

O Distrito é um hub bem mais acessível, realmente. Precisamos lembrar que quando falamos no Inovabra e no Cubo, eles são mantidos por bancos. Inclusive, por coincidência, o gestor anterior do Cubo foi incubado no Cietec e do Inovabra também. Eles passaram pelo Cietec com suas startups e viraram gestores dessas entidades. E é sempre preciso deixar claro que banco não está lá para perder dinheiro. É o mindset do setor que é diferente, quer a gente goste ou não.

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Para a startup tomar a decisão [de ir ou não para um hub ou para uma aceleradora] ela depende, em primeiro lugar, muito do momento em que está. Em segundo lugar, depende do quanto ela dispõe de recursos. Dependendo do momento, ela não tem nenhuma entrada de dinheiro. Ao contrário, ela apenas tem saída. Ainda que existam algumas startups que conseguem no momento zero ter um patrocinador na fase de ideias, isso é muito difícil. Porque o investidor, geralmente, não aposta dinheiro numa ideia, por mais legal que ela seja. Afinal, aquilo ainda não está rodando, e isso representa um risco. Por isso, é raro vermos na fase de ideação ter algum investimento.

Muitas vezes o recurso vem dos co-founders para o desenvolvimento. Então, nessa fase, olhando hubs para Cubo e Inovabra isso se torna muito arriscado. Aí quando olha para o Cietec, que tem custo mensal fixo para quem começa do zero, com salas e instalações, e pode trabalhar em um tipo de coworking, o custo fica em R$ 800 reais, em média. Isso significa que não é de graça, mas não é um valor absurdo, já que com o custo é por startup. Ou seja, se forem cinco pessoas, o custo é de R$ 800.  Eu já não saberia dizer como é o Distrito nesse sentido, mas não é um ambiente caro.

Então, quando o empreendedor vai pensar, ele precisa observar o que cada local oferece quanto aos serviços. Um diferencial importante no Cietec é justamente o espaço físico. As aceleradoras não disponibilizam esse espaço. Então se você precisar de equipamentos, não adianta procurar aceleradoras. Já hubs como o Inovabra e o Cubo têm espaço físico para empresas de TI. Mas não é um ambiente com laboratórios, porque não está no escopo deles. Por isso, a startup tem que olhar o que está fazendo para tomar essa decisão.

Por exemplo, se for uma startup de biotecnologia, no princípio de seu desenvolvimento, na fase de ideação, olhando para frente ela vai ter que pensar em laboratórios, máquinas, certificação Anvisa. Aí o espaço é importante, e o Cietec tem esse diferencial. Já para empresas de TI, o ambiente do Cietec não é tão atrativo para o que muitos buscam. Então vai do perfil da startup, dos recursos e do momento.

Como você enxerga a importância das incubadoras dentro de universidades e ambientes públicos e o impacto das incubadoras no desenvolvimento do empreendedorismo e da formação de um ecossistema inovação?

Ainda dentro das universidades grandes, principalmente as grandes, a gente tem um problema. Vamos pegar o próprio caso da USP, por exemplo. É uma universidade que tem uma produção de conhecimento muito grande. Mas existe uma certa confusão quando falamos que produção de conhecimento não é inovação. As pessoas perguntam: “Como não?”.

Uma coisa que não está tão clara para o mercado é que inovação é diferente de invenção. Algumas pessoas vêm ao Cietec e perguntam onde estão os inventores. Eu brinco que se a pessoa quer ver isso ela pode ir embora, porque aqui só tem empresário. Aí a gente precisa explicar, e às vezes os caras ficam até bravos comigo, porque eu digo que invenção é mais fácil que inovar. Pois inventar, na prática, é fazer alguma coisa que não existe. Inovar, na verdade, está atrelado a fazer negócios.

Então não adianta ter um conhecimento ou uma tese na biblioteca para fazer inovação. Agora se você pegar aquilo e levar para o mercado – e o mercado aceitar -, aí sim você está fazendo inovação. Veja como é diferente, pois não existe inovação sem negócio. Uma coisa que dizem que é radical em conceito é que inovar é extrair nota fiscal. Enquanto não vender, você não inovou. Você pode ter uma ideia útil, mas enquanto você não a vender, isso não é inovação. Nesse sentido, a USP é um grande centro de produção de conhecimento, com mestrados, doutorados, pós-docs, e que vão para a biblioteca.

O papel das incubadoras é fazer essa ponte de conhecimento e negócios. O pesquisador puro é aquele que só pensa em gerar conhecimento e não tende a fazer negócios. Nós precisamos aproximar essas pessoas do mercado, e vice-versa: precisamos aproximar o mercado do conhecimento para gerar inovação. Porque são áreas que até hoje, no Brasil, não conversam muito bem. Isso já melhorou muito, mas o mundo acadêmico ainda olha para os negócios como um bando de malucos que só pensam em reduzir prazos e custos. E o mundo dos negócios olha para a Academia como um bando de pessoas que não se importam com prazos e custos. Com a incubadora, você consegue regular isso porque conhece os dois lados.

Isso já foi muito pior no Brasil, mas ainda está longe de ser o ideal.

O Brasil poderia se inspirar em quem?

Olha, eu tive a oportunidade de visitar o ecossistema de inovação em Israel, e aquilo é em outro planeta. Lá não tem sentido você defender uma tese de doutorado sem aplicação mercadológica. Você pode até fazer, mas aos olhos deles, é bobagem se não virar negócio.  Aqui no Brasil é quase o contrário: muitas vezes, em uma tese de doutorado, em nenhum minuto a pessoa se preocupa com o mercado. É comum, por exemplo, nas universidades de Israel, durante as defesas de doutorado, ter caras de empresas assistindo.

Mas é bom dizer que Israel tem um ecossistema voltado para isso. Em primeiro lugar, a mentalidade israelita para negócios é muito diferente porque é um país de 9 milhões de habitantes. Ou seja, a cidade de São Paulo é maior que Israel nesse ponto, então é uma mentalidade que realmente não funcionaria mesmo para o Brasil. Em um país com 210 milhões de habitantes e uma extensão territorial brutal, não dá para ter o mesmo conceito.  Porém, mesmo assim podemos avançar bastante nessa questão de transformar conhecimento em inovação. E é aí onde incubadoras podem ajudar bastante, mais do que aceleradoras, que já pegam o negócio pronto. Os centros de inovação também podem ajudar e aproveitar parte disso também.

Já os Estados Unidos seria um país comparável ao Brasil em diversidade, tamanho com duas diferenças: o poder econômico é uma questão cultural voltada para negócios. Eles não são tão avessos ao risco como nós. Talvez por uma tradição em história de problemas de mercado, como mudanças de sistemas além de tantos problemas econômicos e políticos que tivemos, isso tudo leva o brasileiro a ter uma série de receios. A própria legislação é complicada. No ambiente americano isso foi muito diferente.

Aqui no Brasil, se você tem uma empresa e ela quebrar, isso é super negativo. Você tem até que esconder. No mercado americano é o contrário. Eles procuram o cara que quebrou porque esse mesmo cara conhece o caminho das pedras, tem experiência, ou seja, não é uma vergonha, muito pelo contrário. Vários grandes empreendedores quebraram. Nesse aspecto, o mercado americano para negócios é bem mais evoluído, embora tenha várias semelhanças com o brasileiro.

E que tipo de programas o Cietec oferece para aproximar a Academia das Empresas?

O nosso programa de Open Innovation está começando a ser procurado por grandes empresas, na questão de corporate services. E, claro, pelo fato de a gente ser conhecido nesse ambiente de inovação e tecnologia. Ao longo do tempo, colocamos 170 empresas graduadas que passaram por todo o processo [de incubação]. Então, a gente acaba sendo reconhecido e, automaticamente, procurados por investidores e por empresas pela reputação que criamos.

Por exemplo, nosso processo seletivo para a Incubadora é contínuo e todo online. Ele está aberto a todo tempo. E sem fazer propaganda especial, a gente recebe entre duas a três propostas por mês. É um processo que se autoalimenta por toda essa experiência de trabalho, ao longo de 23 anos.

Poderia citar alguns cases de mercado que o Cietec apoiou o lançamento?

Isso de certa forma é um problema pela configuração das nossas empresas, já que 99% delas são B2B (Business to Business), e acabam não aparecendo para o grande público. Eu, por exemplo, estou há 18 anos e que me lembre temos dois que [o consumidor] poderia encontrar os produtos no mercado. Uma delas, especificamente, tinha foco mercado era o B2B e por acaso voltou alguma coisa para o consumidor.

Inclusive, quando uma empresa começa a ter mais expressão, outro grande [player] da área vem e compra. Ou seja, elas ficam maduras e em um tamanho, virando um negócio interessante. Então, por isso eu disse que empresas multinacionais compraram empresas nossas, como grandes empresas do setor de saúde. Então, a não ser quem é do ramo específico, acaba não conhecendo. Um exemplo é uma empresa que se chama Gesto Saúde que criou um algoritmo para fazer a gestão de saúde em grandes empresas, que tinha meio milhão de vidas monitoradas por ela. E ninguém [do grande público] sabia que a empresa existia. São casos assim que grandes empresas vêm e compram.

Pense que em 2008, por exemplo, o 3D ainda era algo meio maluco. E uma pessoa com conteúdo educacional em 3D apareceu aqui no Cietec. Poxa, naquela época o cara pregava no deserto. Imagina, naquela época, em 2008, um professor usar algo assim. Ele apanhou tanto que foi para o mercado externo. Acabou que ele abriu uma filial em Barcelona, e fez alguns negócios na Inglaterra. Sabe o que aconteceu? Os chineses compraram o cara. Ele ainda é um dos acionistas e dá risada dizendo que só tem 5% da empresa. E é uma empresa que ninguém nunca nem viu no mercado.

Ou seja, a gente não tem cases de empresas que fizeram IPO (oferta pública inicial de ações). É diferente de empresas, digamos, de TI que aparecem muito. Inclusive, é um problema no mercado porque parece que todo mundo traduz tecnologia por TI. Mas não é isso. Quando falamos na tecnologia em que nós do Cietec atuamos, nós mostramos que casos de Química são casos de Tecnologia. E as pessoas pensam que não é tecnologia porque não é um caso que tem tela, um touch ou não é digital. Então o conceito de tecnologia acaba muito voltado para o digital porque é o que todo mundo vê, como Google, iFood e Uber. Agora, imagina dentro do seu celular o tanto de inovação e de processos que você nem sabe. Mas se não fosse isso, você não tinha a digitalização. A gente está nesse mundo dos bastidores.

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